sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Estamos inaugurando uma nova era geológica: o "antropoceno"

As crises clássicas conhecidas, como a de 1929, afetaram profundamente as sociedades. A crise atual é mais radical, pois está atacando as bases da vida e de nossa civilização. Antes, dava-se por descontado que a Terra estava aí, intacta e com recursos inesgotáveis. Agora, não podemos mais contar com a Terra sã e abundante em recursos. Ela é finita e está sendo degradada, não suportando mais um projeto infinito de progresso.

A presente crise desnuda a enganosa compreensão dominante da história, da natureza e da Terra. Aquela colocava o ser humano fora e acima da natureza e sua missão era dominá-la. Perdemos a noção de que pertencemos à natureza. Somos parte do Sistema Solar, nossa galáxia, que é parte do universo. Surgimos ao longo de um imenso processo evolucionário. Tudo é alimentado pela energia de fundo e pelas quatro interações que atuam juntas: a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear fraca e forte. A vida e a consciência são emergências desse processo. Representamos a parte consciente e inteligente da Via Láctea e da própria Terra, com a missão de cuidar dela para manter as condições ecológicas que nos permitem levar avante nossa vida e civilização.

Ora, essas condições estão sendo minadas pelo atual processo produtivista e consumista. Já não se trata de salvar nosso bem-estar, mas a vida humana e a civilização. Se não moderarmos nossa voracidade e não entrarmos em sinergia com a natureza, dificilmente sairemos da atual situação. Ou substituímos as premissas equivocadas ou corremos o risco de nos autodestruir. A consciência do risco não é coletiva.

Importa reconhecer um dado do processo evolucionário que nos perturba: junto com grande harmonia, coexiste também extrema violência. A Terra, no seu percurso de 4,5 bilhões de anos, passou por várias devastações. Em algumas delas, perdeu quase 90% de seu capital biótico. Mas a vida sempre se manteve e se refez com renovado vigor.

A última grande dizimação ocorreu há 67 milhões de anos, quando próximo a Yucatán, no México, caiu um meteoro de quase 10 quilômetros de extensão. Ocasionou um tremor que afetou todo o planeta, ativando a maioria dos vulcões. Uma nuvem de poeira e gases foi ejetada ao céu, alterando o clima da Terra. Os dinossauros, que por mais de 100 milhões de anos reinavam soberanos, desapareceram. Chegava ao fim a Era Mesozoica, dos répteis, e começava a Era Cenozoica, dos mamíferos. Como que se vingando, a Terra produziu uma floração de vida como nunca antes.

Nossos ancestrais primatas surgiram nessa época. Somos do gênero dos mamíferos.
Mas eis que nos últimos 300 anos o Homo sapiens/demens montou uma investida poderosíssima sobre todas as comunidades ecossistêmicas do planeta, explorando-as e canalizando grande parte do seu produto para os sistemas humanos de consumo. A consequência equivale a outra dizimação. O biólogo E. Wilson fala que a "humanidade é a primeira espécie a se tornar uma força geofísica" destruidora. A extinção de espécies pela atividade humana é 50 vezes maior do que aquela anterior à intervenção humana. O caos climático atual é um dos efeitos.

Nobel de Química de 1995, o holandês Paul J. Crutzen, aterrorizado pela magnitude do atual ecocídio, afirmou que inauguramos uma nova era geológica: o "antropoceno". É a idade das dizimações perpetradas pela irracionalidade do ser humano. Assim terminam 66 milhões de anos da Era Cenozoica. Começa o tempo da obscuridade.
Para onde nos conduz o "antropoceno"?

Leonardo Boff.

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